As trajetórias sexuais e reprodutivas dos jovens brasileiros

Pesquisadores apresentam resultados preliminares de estudo sobre mudanças e permanências nos comportamentos sexuais e reprodutivos de adolescentes de diferentes cidades, em um cenário de relações mediadas pelas redes sociais

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Por Rodrigo de Oliveira Andrade

As redes sociais e as tecnologias digitais pouco têm influenciado os comportamentos sexuais e reprodutivos dos jovens brasileiros. Ao menos no que diz respeito a indivíduos cisgênero — que se identificam com o gênero que lhes é designado quando nascem — heterossexuais, o início das trajetórias afetivas e sexuais parece respeitar os mesmos padrões de duas décadas atrás. 

A conclusão consta de um estudo coordenado por Cristiane da Silva Cabral, professora da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP-USP). Ela e outras pesquisadoras de diferentes instituições de ensino e pesquisa do país entrevistaram 197 jovens com idade entre 16 e 24 anos de quatro capitais — São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre e Salvador —, e duas cidades do interior — Conceição do Mato Dentro, em Minas Gerais, e São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas —, entre outubro de 2021 e julho de 2022.

Imagem: freepik

As respostas indicam que a escola continua sendo o principal espaço de socialização desses indivíduos, e é também dentro delas que eles costumam encontrar seu primeiro parceiro. “A escola é considerada um espaço seguro e aberto, muito embora continue em desencontro com as expectativas juvenis relacionadas a conteúdos sobre gênero e sexualidade”, comenta a pesquisadora, que apresentou esses e outros resultados preliminares de sua pesquisa no seminário “Juventude, sexualidade e saúde: desafios científico-políticos na era digital”, realizado nos dias 16 e 17 de novembro na FSP-USP.

Segundo Cabral, uma das surpresas do estudo foi a dificuldade para encontrar jovens com experiências reprodutivas antes dos 20 anos. Na sua avaliação, é possível que isso seja reflexo de uma queda na taxa de fecundidade na faixa etária de 15 a 19 anos.

Dados apresentados pela socióloga Raquel Zanatta Coutinho durante o seminário reforçam essa hipótese. “O Brasil tem observado uma rápida diminuição das taxas de fecundidade em todos os grupos etários, mas essa tendência é mais acentuada entre 15 e 19 anos”, destacou a pesquisadora do Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional da Universidade Federal de Minas Gerais (Cedeplar-UFMG), que não participa da pesquisa de Cabral. “Em 2015, essa taxa era de 0,6 filhos por mulher, ao passo que em 2022 ela já estava abaixo de 0,4.”

A dificuldade para encontrar jovens com experiências reprodutivas antes dos 20 anos pode ainda estar relacionada a um maior uso de contraceptivos de emergência, também conhecidos como “pílula do dia seguinte”, que utilizam doses concentradas de hormônios sintéticos para evitar a gravidez após a relação sexual. Dados da Pesquisa Nacional de Saúde Escolar de 2019, feita pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) com 125 mil jovens entre 13 e 17 anos, indicam que 45,5% já usaram contraceptivo de emergência em algum momento da vida.

A eficácia da pílula chega a 95% se tomada nas primeiras 24 horas após a relação. Esse percentual, no entanto, cai para 85% no segundo dia e para 58% no terceiro, aumentando as chances de uma gravidez indesejada. Nesses casos, muitas meninas recorrerem ao aborto.

No estudo de Cabral, pelo menos dez participantes relataram ter abortado, sobretudo por meio de métodos medicamentosos. Muitos casos envolviam meninas negras e de baixa renda, as quais também afirmaram ter tido dificuldade para conseguir esses medicamentos e medo de procurar atendimento médico em caso de complicações.

Falta de diálogo

Um dos principais elementos subjacentes à gravidez indesejada é a falta de diálogo sobre sexo e sexualidade dentro de casa. “As mães costumam ser a principal referência para moças e rapazes nesse sentido, ainda que as conversas não sejam totalmente abertas”, diz Cabral. “Quando o tema é abordado, tende a ser tratado pelo prisma do risco de gravidez para as mulheres e de infecção por IST [Infecções Sexualmente Transmissíveis] para os rapazes.”

Outro elemento importante diz respeito à escassez de informação sobre questões relacionadas à prevenção da gravidez e à saúde sexual e reprodutiva nas escolas, bem como à dificuldade de acesso a métodos contraceptivos. Sobre isso, Cabral e suas colaboradoras observaram em muitas meninas certo desconforto e queixas sobre os efeitos colaterais dos contraceptivos hormonais. Algumas o interrompem temporariamente; outras definitivamente, ao mesmo tempo que buscam alternativas que interfiram menos no organismo. “Há cada vez mais meninas preocupadas e inquietas com os efeitos colaterais dos métodos hormonais, embora não encontrem alternativas viáveis e acessíveis para trocá-los”, afirma a pesquisadora.

Outro aspecto da pesquisa que chamou a atenção das pesquisadoras foram os inúmeros casos de violência sexual relatados por indivíduos de todos os estados avaliados. “As ocorrências se deram em diversos momentos da vida de alguns dos entrevistados, muitas vezes envolvendo conhecidos ou pessoas próximas”, destaca Cabral. Ela espera que os resultados, uma vez publicados, contribuam para o aperfeiçoamento de políticas públicas voltadas à diminuição das vulnerabilidades e dos casos de abuso sexual de crianças e adolescentes, e de ações para eliminar a discriminação contra gestantes jovens.

Prevenção ao HIV/Aids

O estudo coordenado por Cabral também se debruçou sobre a concepção e os comportamentos de prevenção dos jovens brasileiros em relação ao HIV/Aids.

De acordo com a cientista social Daniela Knauth, da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), uma das pesquisadoras que integram a equipe de pesquisa, tem prevalecido entre os jovens a ideia de que a doença é tratável e pode afetar qualquer um, diferentemente do observado na década de 1990, quando a concepção era a de que a Aids era uma doença fatal, distante e relacionada à homossexualidade. “A possibilidade de tratamento tem produzido uma relativização do medo de contrair a doença”, diz a pesquisadora. “A Aids já não é mais percebida como uma doença fatal.”

Segundo ela, a preocupação mais premente é com a gravidez. “Cada vez mais a possibilidade de infecção pelo HIV é comparada à possibilidade de uma gravidez indesejada, isto é, filho e Aids são duas coisas que os jovens não desejam ‘pegar’, mas admitem que a possibilidade existe a partir do momento que têm uma vida sexual ativa”, destacou Knauth. 

Os avanços obtidos no tratamento e na prevenção do HIV pouco se refletem nas práticas e concepções dos jovens, que ignoram as novas tecnologias de prevenção. “As estratégias de prevenção atualmente estão fortemente calcadas na confiança no parceiro”, explica Knauth. “Para as meninas, essa confiança se forma a partir do tipo de vínculo que elas têm com o parceiro, ao passo que para os meninos, o fato de já ‘conhecer’ a parceira gera um sentimento de segurança a ponto de o uso do preservativo ser abandonado.” Não por acaso, são poucos os jovens que usam camisinha de forma regular em suas relações, revela a pesquisa.