O teatro como memória popular no Rio Grande do Norte

Peças produzidas no interior do estado são influenciadas e marcadas pela presença de elementos da cultura popular, segundo estudo.

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Por Aline Weschenfelder

A evocação à memória é uma das características mais presentes nas produções teatrais apresentadas nas cidades do interior do Rio Grande do Norte. Segundo dados obtidos em um estudo realizado no Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), mais de 90% das produções nas cidades do interior do estado evocam a história da população local ao expressar suas tradições, medos e crenças.

A pesquisa faz parte de um projeto que dá continuidade à investigação que classificou o perfil de artistas e grupos de teatro em atividade naquele estado entre os anos de 2019 e 2022. Os pesquisadores deram sequência ao trabalho porque agora querem compreender como os elementos da cultura da região afetam e influenciam o teatro potiguar.

Líder do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Artes da Cena na UFRN e coordenador do projeto, Adriano Moraes de Oliveira explica que o estudo anterior identificou características específicas — as quais chama de “saberes populares” e “acadêmicos” — nas manifestações artísticas nas cidades do interior do estado. “O ‘saber popular’ envolve a religiosidade e o conhecimento transmitido pelos ‘mestres’ da região, ao passo que o ‘saber acadêmico’ é adquirido por artistas que dominam conhecimentos técnicos”, esclarece o pesquisador. 

São denominados “mestres” os motivadores de movimentos populares. Exemplo disso é o movimento independente Escambo Livre, em que “artistas se reúnem para ensinar e aprender, e trocar saberes sem nenhum tipo de apoio”, complementa Oliveira. “Além dos mestres, os artistas também se inspiram em grupos já consolidados na região, como a Trapiá Cia Teatral e a Cia Escarcéu de Teatro”, acrescenta.

Segundo ele, esse tipo de prática teatral — que se difere daquela realizada nos centros urbanos —, somada à representatividade histórica da região, constitui o objeto do estudo atual. “Queremos entender como os artistas fazem uso de referências, produzem cenas, organizam o trabalho e lidam com a presença da diversidade nas composições”, explica.

Para isso, ele e seus colegas estão fazendo entrevistas e promovendo encontros com os participantes de grupos de teatros em diferentes cidades do interior do Rio Grande do Norte. “Oferecemos oficinas e compartilhamos conhecimentos específicos com eles”, diz Oliveira. “Ensinamos ao mesmo tempo que compreendemos e aprendemos com o trabalho deles.”

Os encontros também possibilitam identificar referências literárias e estéticas no trabalho artístico. “Os artistas dizem não ter ou utilizar essas fontes, mas percebemos que elas aparecem nas conversas”, afirma.

Por entender que o Cordel é bastante utilizado pelos grupos teatrais, os pesquisadores estão organizando para a próxima etapa do estudo uma atividade envolvendo esse gênero literário. “Trata-se de uma pequena obra teatral que visa promover encontros entre artistas e espectadores para discutir poéticas teatrais presentes no estado”, explica Oliveira.

Representação de papangus, conhecidos por invadirem casas pedindo um prato de angu durante o carnaval e quarta-feira de cinzas. Foto: Adriano Moraes de Oliveira

Em 2023, os pesquisadores realizaram seis experimentos similares nas cidades de João Câmara, Santa Cruz, Ipueira, Santana do Seridó, Ouro Branco, São Fernando e Cruzeta. Na ocasião, constataram aspectos da memória regional que motivaram o trabalho atual. 

O projeto também prevê a realização de entrevistas com os idealizadores do Movimento Escambo Livre, Junio Santos e Ray Lima, e outros artistas potiguares. “O trabalho deles é um fenômeno que já foi identificado como modelo de trabalho único no país e é economicamente viável. Queremos sistematizar o formato em um livro”, finaliza.

Contribuem com o projeto a Fundação José Augusto, o Centro Cultural Trapiá e o Sesc Rio Grande do Norte.

 

Sobre o projeto:

O projeto “Movimentos de teatro de grupo do interior do RN: da presença de mestres aos saberes acadêmicos” foi contemplado na chamada nº 40/2022, do Edital Pró-Humanidades do CNPq.

Coordenador: Adriano Moraes de Oliveira (UFRN)