Diversidade na formação superior para a redução das desigualdades

O aumento da diversidade no ensino superior e o respeito às diferenças são fatores que podem contribuir para a redução das desigualdades, conforme hipótese de pesquisadores que estão investigando os efeitos da convivência entre universitários de diferentes perfis sociais, econômicos, culturais e étnicos.

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Por Aline Weschenfelder

O aumento da diversidade no ensino superior e o respeito às diferenças são fatores que podem contribuir para a redução das desigualdades e, consequentemente, para uma sociedade mais justa. Essa é a hipótese de pesquisadores da Universidade de Passo Fundo (UPF), no Rio Grande do Sul, em estudo que busca investigar os efeitos do convívio entre estudantes de diferentes perfis sociais, econômicos, culturais e étnicos na universidade.

O prognóstico foi feito com base em resultados obtidos no Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade), e a pesquisa visa complementar esses dados qualitativamente. “Identificamos uma percepção social mais sensível nos alunos do ensino superior”, revela Cristina Fioreze, professora no Programa de Pós-Graduação em Envelhecimento Humano, do Instituto da Saúde da UPF, e coordenadora do projeto.

De acordo com as informações quantitativas obtidas pelos pesquisadores da UPF por meio da análise dos dados do Enade, a convivência entre estudantes com perfis e realidades diferentes é maior nas universidades públicas, em relação às instituições particulares. 

Os dados analisados até o momento também mostram que a diversidade no ensino superior está relacionada ao próprio curso. “Observamos uma maior democratização do ensino nos cursos menos procurados. É mais fácil encontrar diversidade nas salas de aula de Serviço Social do que de Engenharia”, aponta Fioreze.

Segundo a pesquisadora, essa diferença fomenta a desigualdade e provoca o afastamento de grupos sociais. Para Fioreze, parte da sociedade que desfruta de maiores privilégios é indiferente às minorias sociais por falta de contato e conhecimento. 

Nesse sentido, avalia a pesquisadora, distintos perfis sociais em sala de aula podem contribuir para uma postura mais crítica por parte dos alunos mais privilegiados. “Eles são estimulados a desenvolver novas habilidades socioemocionais, aprendem a respeitar as diferenças e a se tornarem aliados dos colegas”, ressalta a educadora. E complementa: “Quanto mais alunos da educação superior estiverem comprometidos com a justiça social, uma sociedade melhor e com menos preconceitos estará sendo formada”.

Um aspecto também importante é o aumento da representatividade, destaca ela. “O fato de uma menina pobre e preta ser atendida por uma médica preta na unidade básica de saúde tem grande significado; ela ganha motivação e referência”, afirma.

A pesquisa está sendo realizada em duas fases. No momento estão sendo examinados os aspectos quantitativos, com base nos resultados do Enade e de estudos anteriores conduzidos pela pesquisadora. O próximo passo é a realização de grupos focais formados por estudantes que vivenciam a diversidade em sala de aula para saber o que eles pensam sobre essa convivência.

“Os grupos focais deverão mostrar a dimensão sentimental, da emoção dos alunos”, explica Fioreze. O primeiro encontro será realizado na UPF, ainda sem data. Os pesquisadores cogitam estender o experimento para universidades federais, a fim de se observar diferentes realidades.

Fioreze espera que a pesquisa possa contribuir com a revisão da Lei de Cotas, que completou dez anos em agosto de 2022. O artigo 7º da lei prevê que ela seja revisada a cada dez anos, e a pesquisadora acredita que o estudo possa indicar os motivos que fazem o investimento valer a pena.

 

Sobre o projeto

O projeto “A diversidade no perfil dos estudantes e a formação de profissionais comprometidos com o bem público na educação superior” foi contemplado na Chamada nº 40/2022, do Edital Pró-Humanidades do CNPq.

Coordenadora: Cristina Fioreze (UPF)