Por Stefanie Oliveira
Pesquisadores do Instituto Nacional da Ciência e Tecnologia (INCT-CPCT) analisaram trocas de mensagens entre participantes de grupos antivacina do WhatsApp no período de 20 de julho de 2022 à 31 de julho de 2023, constatando que a figura médica foi fortemente acionada para embasar discursos antivacina.
Cinco grupos foram selecionados com base na frequência de mensagens e na centralidade do debate sobre vacinas. Os pesquisadores extraíram e categorizaram as mensagens manualmente a partir de palavras-chave como “médico”, “CRM”, “doutor” e “vacina”, resultando em 945 mensagens, avaliadas de forma anonimizada para garantir a privacidade dos participantes e evitar interferências na dinâmica dos grupos estudados.
As mensagens foram separadas em 10 categorias, três delas chamaram a atenção dos pesquisadores. A primeira foi o “acionamento da autoridade médica para questionamento da eficácia das vacinas”. Nesses casos, os participantes acionavam a autoridade médica para legitimar argumentos que contestavam a eficácia e segurança dos imunizantes.
Em uma live transmitida em 2021 no Instagram, um médico afirmou: “Eu peguei uma família ontem de 5 pessoas, as 5 vacinadas e as 5 com Covid. Eu não sei muito o que fazer. A gente ainda está estudando. Está tudo inflamado!”.
“O respaldo médico traz seriedade ao discurso antivacina, fazendo com que muitas pessoas confiem mais nessas figuras do que nas instituições de saúde, potencializando o cenário de desinformação”, explica a cientista da comunicação Lídia Raquel Herculano, professora da Universidade Regional do Cariri, no Ceará, e uma das autoras do estudo, publicado em janeiro na revista Cuadernos.info.
A categoria “reconhecimento e exaltação de médicos” apresentava mensagens com elogios e opiniões a favor de médicos específicos, descrevendo-os com adjetivos como “competente” e “destemido/a”.
Outra categoria – “contestação à autoridade médica” – trazia mensagens com opiniões contra médicos, as quais mostravam desconfiança nos profissionais, nas suas práticas e em suas motivações, como nos exemplos: “…os médicos que sabem todas as barbaridades horríveis causadas pelas vacinas, estão fazendo pouco barulho e pedindo muito dinheiro” e “sabemos que a grande maioria dos médicos são comprados pelo Sistema.”
O artigo evidencia que os grupos antivacina adotam uma postura contraditória: questionam a autoridade de instituições científicas e médicas ao mesmo tempo que se embasam nela para dar legitimidade a argumentos contrários à vacinação. Médicos com discurso antivacina eram frequentemente alçados a heróis, enquanto os que defendiam a vacinação eram vistos como vilões.
Os participantes dos grupos também levantavam dúvidas sobre tratamentos médicos e a eficácia das vacinas, muitas vezes referindo-se a um suposto tratamento precoce contra a Covid-19. Eles criavam narrativas conspiratórias, sugerindo que poderosos atores globais tinham intenções ocultas e malignas de reduzir a população pela metade, além de atacar a imprensa tradicional e organizações como a Organização Mundial da Saúde (OMS), universidades e governos, retratando-os como inimigos que manipulavam informações para favorecer a vacinação.
As análises das mensagens indicam ainda que os membros do grupo se viam como vítimas perseguidas por um Estado opressor que os obrigava a se vacinar, retirando sua liberdade individual. Somado a isso, compartilhavam relatos de estigmatização por parte de amigos e familiares, que os consideravam paranoicos ou desinformados. “O grupo funcionava como um espaço terapêutico, em que podiam desabafar suas frustrações e encontrar apoio emocional entre aqueles que compartilhavam das mesmas crenças”, compara a pesquisadora.
Nos grupos do WhatsApp, os participantes utilizavam uma linguagem própria para se referir à vacinação, usando termos como “peste”, “experimento”, “picada da serpente”, entre outros. De acordo com Herculano, além de reforçar a identidade do grupo, esse vocabulário serve para dificultar o monitoramento externo e evitar censura. E em alguns casos, utilizavam variações gráficas desses termos para dificultar a detecção automática de conteúdo antivacina por plataformas digitais.
A pesquisa verificou que os grupos antivacina incentivavam seus membros a divulgar links de acesso a novos participantes, criando uma rede de recrutamento ativa. “O compartilhamento de convites para grupos no WhatsApp era visto como uma missão, na qual os membros acreditavam estar espalhando ‘a verdade’ sobre as vacinas”, explica Herculano.
As pessoas ingressavam nesses grupos com dúvidas sobre a vacinação. Lá dentro, eram acolhidas pelos participantes, que forneciam respostas alinhadas à sua visão e reforçavam a desconfiança em relação às autoridades de saúde.
Esse senso de comunidade ajudava a converter pessoas inicialmente céticas em apoiadores do movimento antivacina, criando um efeito de câmara de eco – descrição metafórica de uma situação em que informações, ideias ou crenças são amplificadas ou reforçadas pela comunicação e repetição dentro de um sistema definido.
Para dar credibilidade a seus argumentos, os participantes frequentemente compartilhavam artigos científicos, preprints (manuscritos de estudos ainda não revisados por pares), documentários e reportagens alternativas. Além disso, traduziam e legendavam materiais estrangeiros de mesmas posições para ampliar a disseminação de informações alinhadas à sua visão.
Relatos de conversas com médicos, trechos de lives e áudios de WhatsApp foram frequentemente compartilhados como provas de que a vacina contra a Covid-19 seria perigosa.
Além do engajamento ideológico, a pesquisa também identificou que alguns médicos lucravam financeiramente com a desinformação. Profissionais antivacina promoviam consultas particulares para oferecer tratamentos alternativos e exames médicos questionáveis, criando um mercado paralelo baseado na rejeição aos imunizantes.
Para chegar a essas conclusões, os autores buscaram por links de convites para grupos públicos do WhatsApp, Telegram, Facebook e Twitter (atual X), usando os termos “vacina”, “vacinação”, Covid-19”, “AstraZeneca”, “CoronaVac”, entre outros.
A pesquisa fornece dados sobre o funcionamento interno dos grupos antivacina, destacando o papel dos médicos na disseminação de desinformação e na legitimação dessas narrativas. Também expõe como esses grupos se organizam para atrair novos membros, reforçando crenças conspiratórias e criando redes de apoio que dificultam a saída dos participantes.
Para Herculano, o fato da medicina ser um campo altamente respeitado na sociedade traz força às declarações médicas, independentemente de serem embasadas ou não. “Um médico afirmar que não confia nas vacinas aumenta significativamente a credibilidade da narrativa antivacina dentro do grupo”.
Os pesquisadores ressaltam que compreender o papel desses médicos permite que órgãos reguladores e autoridades de saúde adotem medidas para refutar informações falsas e reforçar a confiança na ciência.